A edição nº 2047 (de 13/2/2008) da revista Veja dedicou um
espaço considerável ao tema da educação nacional. A entrevista
com a secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria
Helena Guimarães de Castro, e os artigos dos economistas
Claudio deMoura Castro e Gustavo Ioschpe compõem uma
espécie de concepção "vejiana" da educação.
A secretária Maria Helena enfatiza que um dos maiores
problemas da deplorável situação da educação em
São Paulo (leia-se, por exemplo, matéria da Folha,
publicada faz um ano) é o insatisfatório
nível profissional dos professores. Os professores
seriam incapazesde dar boas aulas. Quando a jornalista
Monica Weinberg lhe pergunta qual o caminho para
melhorar esse nível, a resposta da secretária é, digamos,
corajosa: "Num mundo ideal, eu fecharia
todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais
conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria
tudo do zero." Essas faculdades apenas perpetuariam
"baboseira ideológica".
Maria Helena é socióloga, mestre em Ciência Política pela Unicamp
e, segundo informações oficiais, está concluindo doutorado na
USP em Ciências Sociais. Sua crítica, portanto, é de quem se
sente apta a julgar como totalmente ineficazes os professores
que ao longo das últimas décadas deram o tom da formação
pedagógica brasileira. Pensemos nas aulas, conferências e
escritos de Dermeval Saviani (Unicamp) e
Antonio Joaquim Severino (USP), para mencionar,
entre tantos outros, dois acadêmicos de prestígio.
O modelo da gincana
Seriam os doutores em pedagogia os principais responsáveis
por fomentar vários mitos que atrapalham a educação pública.
Para Maria Helena, é um mito afirmar que o aumento salarial
dos professores ou um plano de carreira influenciariam a
melhoria do ensino. Na sua opinião, dinheiro
(para falar curto e grosso) não resolve. A menos que esteja
vinculado a uma "política de reconhecimento do mérito".
Por isso, a secretária pretende pagar bônus a todos os que,
numa escola – funcionários, professores e diretor – "levarem"
os alunos a alcançar determinadas metas de bom desempenho.
Os bônus poderão chegar a três salários por ano.
Imagina Maria Helena que os professores, motivados pela
perspectiva de um prêmio pecuniário, insuflados pela súbita
adoção da meritocracia (como se esta existisse no plano
político...), realizarão o milagre de transformar a realidade
educacional. Essametodologia do burro atrás da cenoura
sussurra aos ouvidos do professor:
"Quer mais dinheiro? Então trabalhe mais!" Não leva
em conta os problemas reais que tornam a boa vontade e
o esforço do docente, por maiores que sejam, fonte de
mais estresse. Contudo, e vai aqui simplória sugestão
— uma vez que os bônus estarão
condicionados ao desempenho dos alunos, por que
não prometer também aos estudantes uma
participação? Uns 5% poderiam
incentivá-los a colaborar com essa escola de resultados!
A idéia simplista de que a repetência, o abandono escolar
(vale a pena ler matéria do Correio Braziliense), o
desinteresse crônico, a indisciplina, o fraco rendimento etc.
devem-se sobretudo à falta de bons "dadores de aula"
demonstra que o estilo "PSDB"
de governar não tem condições de analisar a realidade
educacional e oferecer soluções melhores do que o
modelo da gincana. Quem correr mais, quem tiver sorte
e/ou for mais criativo, atinge os
objetivos, ganha pontos e arrebata o prêmio.
Formação humanística
Não poucos alunos enfrentam problemas fora da
escola (famílias desestruturadas, ambiente social adverso,
falta de valores, de referências, carências alimentares e de
saúde) e esses problemas geram novas e complexas
dificuldades na sala de aula,
associadas a outros mil problemas que independem
de uma boa
aula. Aliás, impedem a boa aula que o bom professor
porventura
preparou. Como poderá a cenoura bonificadora fazer
professores e diretores deterem o tráfico de drogas
que invade as escolas,
consertarem móveis quebrados, reformarem os banheiros,
transformarem salas sem ventilação em paraísos didáticos,
evitarem a violência entre os alunos?
Há professores despreparados? Há. Escolheram o magistério
por idealismo (acreditaram na pedagogia do amor à la
Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação no tempo de
Geraldo Alckmin) ou por falta de alternativas. São
sobreviventes de um ensino básico sofrível, de um ensino
médio deficiente, falta-lhes até mesmo estrutura física e
emocional para dar conta da sobrecarga de classes, expediente
necessário na luta por somar salários.
Há professores que faltam muito? Sim. Os que faltam,
não raro, fogem das condições de trabalho:
indisciplina incontrolável,
humilhações e arbitrariedades que usurpam sua
autonomia,falta de recursos materiais, falta de
tempo ede saúde por excessode atividades.
Lembrando que a maioria feminina
entre os docentes
põe em jogo outra questão para além da sala de aula.
São as mulheres que, professoras com 30 a 40 horas/aula
por semana, estão sobrecarregadas também pelas
tarefas domésticas.
E não só isso. Educar, ensinar, é tão ou mais
exigente do queoutras exigentes profissões.
Requer a prática da comunicação,
o dom da invenção, a capacidade de avaliar (intuitiva e
objetivamente) o comportamento humano (de crianças e
adolescentes!), forte autonomia profissional, virtudes que só se
desenvolvem com formação humanística prévia
e auto-aprendizagem
contínua. Estas, por sua vez, implicam leitura, reflexão, acesso
à cultura no sentido amplo, apoio profissional (bons cursos,
boas oficinas, orientação didática, ajuda psicológica) e
tranqüilidade econômica.
Salário não é tudo, mas...
Como uma espécie de comprovação das opiniões da secretária,
Claudio de Moura Castro escreve na mesma edição da Veja
um artigo igualmente curto e grosso: "Salário de professor".
Baseado em que, segundo as sempre infalíveis estatísticas,
os docentes brasileiros possuem remuneração compatível com
a realidade empregatícia nacional, o articulista conclui que os
sistemas públicos se tornariam mais eficazes se "conseguissem c
riar um ambiente mais positivo e estimulante". O exemplo estaria
nas escolas privadas, em que os professores, com "níveis salariais
parecidos", estão contentes.
O mais estimulante seria então a tal cenoura tentadora do
bônus? Moura Castro não afirma nem nega.
Menciona outrotema: o da gestão.
"Como a escola tem a cara do diretor", dependeria
então desse gerente do ensino, digamos assim,
valorizar os professores,
motivá-los, com bônus ou sem bônus. Mas se,
na prática, os diretores
são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou,
medianteconcurso, estão politicamente compromissados
de modo mais oumenos velado com estes mesmos
governos, a escola desse diretordificilmente terá a cara
dos professores nem dos alunos que lá estão.
A propósito, recomendo que economistas e sociólogos
que se autoproclamam especialistas em educação
leiam outro uspiano(antes de se fecharem as faculdades
de Educação): o pesquisadorVitor Henrique Paro,
sobre a eleição de diretores em escola pública
como experiência democrática de grande valor.
Nenhuma palavra da secretária e do articulista
sobre a iniciativado governo federal de estipular
o salário mínimo dos professores
em 850 reais, o que significará um aumento de quase 50%.
Não concordam eles com o ministro Fernando Haddad?
Salário,concordo eu com eles, não é tudo, mas,
sem cuidar dos salários,
tornando-os, inclusive, atrativos para melhores profissionais,
o governo poderá jogar no sistema o dinheiro que bem quiser
(contratar consultorias, investir em computadores, instalar
câmeras para monitorar os alunos etc.), mas os
problemas continuarãoa se perpetuar.
Finlândia, o paradigma
O terceiro capítulo educacional dessa edição da Veja é assinado
porGustavo Ioschpe: "Pelo direito à ruindade". Gustavo
critica o MECpela iniciativa, que considera "antiliberal",
de averiguar melhor aqualidade do ensino superior
(em particular as faculdades de direitoe pedagogia),
sob pena de fazer reduzir a oferta de vagas ou mesmo
fechar o curso. Ora, não dissera a secretária de Educação
que, sefosse possível, fecharia todas as faculdades de
pedagogia, mesmoas que têm a melhor avaliação?
Não são essas faculdades que
prejudicam a escola, transmitindo baboseiras ideológicas em
lugar de ensinar os professores a serem professores?
A contradição é só aparente. No momento em que as faculdades
de pedagogia estivessem todas fechadas, sobretudo as públicas,
mais críticas, menos dóceis ao mando, tudo recomeçaria do zero.
Ou ficaria tudo na estaca zero. Quem quisesse abrir fábricas
de diplomas pedagógicos teria amplo direito de fazê-lo, sem
maiores impedimentos ou muitas cobranças, como em outros
tempos, e os professores formados nessas faculdades teriam
o dever de superar sua posterior "ruindade", rezando pela
cartilha da "pedagogia do bônus".
Estaria assim o mercado controlando as coisas ao seu modo:
o famoso "salve-se quem puder".
Mas o espírito "vejiano" continua a dar lições sobre a arte de
lecionar... Na edição desta semana (nº 2048, de 20/2/2008),
a revista Veja publica a matéria "A melhor escola do mundo".
Thomas Favoro, diretamente da Finlândia (país com
características idênticas às do Brasil), revela o que podemos
aprender em termos educacionais.
No quesito "salário", os professores finlandeses, infinitamente
melhores do que nós, recebem cerca de 2.500 dólares/mês;
nós embolsamos algo em torno de mil dólares/mês. Esclarece
a matéria, em letras minúsculas, que se trata de professores
do ensino fundamental com 15 anos de experiência.
Segundo o texto, e deve ser verdade, 100% dos professores
finlandeses possuem o mestrado. Já no Brasil, somente 2%.
Mas se depender da gestão do governador José Serra, essa
disparidade continuará. Em meados do mês de janeiro de
2008, suspendeu-se o programa "Bolsa Mestrado" para os
professores estaduais. O intuito deve ser viabilizar o tal
bônus que aí vem!