quinta-feira, 10 de julho de 2008

O VÔO DAS BORBOLETAS por Renato Lauermann


Greve causa desconforto e sofrimentos, mas é um

legítimo instrumento reivindicatório em uma democracia.


Greves permitem observar o que há de melhor e de pior

nos seres humanos.
O melhor é a solidariedade, a união, a organização e a

capacidade de superar possíveis resultados inesperados.
O pior é o egoísmo e o oportunismo que se manifesta nos

que ´furam´ a greve, mas querem se beneficiar dos

resultados positivos, quando alcançados.
Por isso, eu aponto um único lado negativo nas greves:

por beneficiar indistintamente aos que corajosamente

evoluem para borboletas e aos que covardemente,

aceitam a condição de lagarta.
A lei deveria mudar, garantindo que as conquistas dos

grevistas fossem apenas deles. Os demais receberiam

apenas o que os patrões oferecem e que de bom grado

eles aceitam, pois se assim não fosse, eles também se

rebelariam.
É assim nas greves de professores, bancários, policiais

ou qualquer categoria profissional em que uma parcela

deles não sabe a diferença entre existir e viver.
Exalto a coragem dos que arriscam. Deploro a vileza dos

que fazem da acomodação uma maneira de auferir lucros

indevidos.
Aos que ganham asas, a certeza de que vistas do alto,

as lagartas são ainda menores do que parecem.


Resposta a Secretária de Educação de SP Parabéns para essa supervisora!!!


Vocês que já são Professores ou que estão se preparando

para tal...Leiam com muita atenção esse desabafo de uma

Supervisora de Ensino Público...
Assunto: Resposta a Secretária de Educação de SP
Olá. ´Todos contra esse modelo de educação em SP´.
Analisando afirmações da Secretária
Senhora Secretária,
Quero aqui expressar, com todo o respeito, a opinião de

uma profissional que pensa que a educação pública de

boa qualidade é fundamental para o desenvolvimento

do país e que, por isto mesmo, tem orgulho de pertencer

ao Quadro do Magistério Estadual Paulista. Tenho
15 anos de trabalho na Escola Pública de São Paulo,

11 dos quais em sala de aula e os últimos 04 na

Supervisão de Ensino. Tenho lido com muita apreensão

algumas matérias que saem nos jornais e na Revista

´Veja´ que, a meu ver, têm colocado a maior parte da

responsabilidade dos males da educação nos professores

e gestores escolares, sem, contudo, fazer uma reflexão

mais profunda sobre esta situação.
Concordo que há um número grande de professores sem

condição para assumir uma sala de aula. Mas há que se

perguntar: por que isto acontece? Se a justificativa do

fracasso da educação está neste fato, por que aceitar

professores tão mal formados? É triste pensar que

boa parte dos professores é formada em cursos que

não preenchem os mínimos requisitos para formar

bons professores. Não posso deixar de pensar que isto

parece uma política muito bem pensada. Professores

mal formados formam mal seus alunos e, por isto mesmo,

não têm o direito de receber salários dignos de um bom

profissional. Os bons profissionais acabam abandonando

a carreira pois não são valorizados tanto financeiramente,

como do ponto de vista social. Nem o Estado, nem a

sociedade respeitam estes profissionais. E como resgatar

o respeito perdido perante a sociedade, se toda campanha

que o governo e a mídia em geral fazem por uma educação

de qualidade, é uma campanha contra os professores,

sempre apontados como os grandes culpados pela situação

da escola pública?No entanto, quando alguns de nós

afirmamos que é preciso fiscalizar, com mais firmeza,

os cursos para que passem a formar professores competentes,

lá vem aquela ´baboseira ideológica´ (me desculpe por

emprestar sua expressão) de que somos um bando de

castristas autoritários.Ninguém reclama quando a

vigilância sanitária fecha um estabe-lecimento que não

segue as mínimas regras – afinal é uma questão de saúde

pública. Mas quando falamos da necessidade de fiscalizar

as instituições de ensino superior e tomar atitudes firmes

contra aquelas que formam mal, é uma gritaria geral.Em

uma entrevista à ´Veja´ a senhora afirma que ´num mundo ideal´

fecharia as faculdades de pedagogia porque seus cursos são ´exclusivamente teóricos, sem nenhuma conexão com as

escolas públicas e suas reais demandas´ (Veja, 13/02/2008)..

Na verdade, senhora secretária, uma boa parte dos cursos são

vagos mesmo e os alunos não tem aulas de tipo algum, sejam

teóricas, sejam práticas.Penso que qualquer reforma no ensino

básico será infrutífera se não acompanhada de uma reforma

profunda nos cursos que formam professores.Outra questão

reside nas condições de trabalho. Muito tem se falado no

exemplo finlandês, especialmente em matérias da ´Veja´.

Convenhamos, nenhuma delas explica muito bem a situação

dos professores finlandeses, tão citados como exemplares.

Matéria do ´Washington
Post´, disponível na Internet

(washingtonpost.com, acesso em fevereiro de 2007)e intitulada

´Focus on Schools Helps Finns Build a Showcase Nation´,

nos fornece dados que possibilitam ver as diferenças entre

as condições de trabalho dos professores daqui e da Finlândia.

Neste
país, a profissão é valorizada, os professores são respeitados

pela sociedade e se orgulham de sua profissão. Quase todos

são mestres, no mínimo. Será que se formam em cursos vagos,

de fim de semana? Cursos reconhecidos pelo Governo e que

cresceram exponencialmente a partir dos anos 90? Aqui em

São Paulo, até mesmo o programa ´Bolsa Mestrado´ foi suspenso

pelo governador José Serra.
Na Finlândia, os professores não são horistas; são contratados

para trabalhar em uma única escola; têm dedicação exclusiva,

tendo tempo para desenvolver projetos que favoreçam a aprendizagem.Enfim, são professores-pesquisadores, com

condições para tal. Aqui, senhora
secretária, professor da escola pública é horista e dá até

vergonha de dizer quanto vale a hora / aula de um professor.

Para compor o salário os OFAs se deslocam de uma escola

para outra para completar a carga horária. Muitos efetivos de cargo,

para aumentar a renda, acabam acumulando cargo no próprio

Estado ou no Município.Isto sem falar naqueles que também

atuam em escolas particulares. Em relação a esta questão,

outra matéria ´vejiana´ afirma que salário não tem relação

com qualidade de ensino. Citando a Finlândia, afirma que lá

os professores ganham quase o mesmo que a média do

salário nacional, enquanto os professores daqui ganham

cerca de 50% a mais.Ora, eu gostaria de ganhar um

salário igual ao da média nacional, desde que a nossa

média nacional fosse igual à da Finlândia. Como os professores

de lá, com certeza eu não reclamaria. Como diversos

estudos mostram, números são interpretados em função de

nossas intenções e visões de mundo. Como educadora e com

uma visão diferente da ´vejiana´, penso que devemos lutar

por um futuro em que a média dos salários daqui possa se

comparar à de países que oferecem uma vida mais digna

aos seus cidadãos. Aliás, é interessante observar que

matéria da própria ´Veja´ (Veja São Paulo, de 16/04/2008),

mostra que salário tem sim relação com a qualidade de ensino.

A matéria nos informa que a média dos salários dos

professores das 10 melhores escolas no ENEM 2007 é

de R$ 6.000,00. Há professores que recebem mais de

R$ 9.000,00. São professores bem formados, valorizados e

com dedicação exclusiva.

Sei das dificuldades de se arcar com custos de salários tão altos
para os professores das escolas públicas, mas dizer que
ganhamos bem e que reclamamos à toa beira é brincadeira
de mau gosto, para não dizer que parece um discurso ensaiado
e de má fé. Voltando à Finlândia, lá o sistema é ´rich in staff´,
como é afirmado na matéria do ´Washington Post´.
Há funcionários, psicólogos e especialistas em crianças com
necessidades especiais. Já aqui... Lá o sistema seleciona os
melhores professores, pois os valoriza. Aqui o sistema contrata
professores mal formados exatamente porque não os valoriza.
Só quando os professores forem profissionais bem formados,
receberem salários dignos de sua profissão e forem respeitados
enquanto profissionais é que o Estado terá condições de exigir
resultados. Aí sim poderá avaliar e até mesmo criar mecanismos
para excluir aqueles professores que não tenham compromisso
em sua profissão, tal como na Finlândia ou nas escolas
particulares. Do contrário, as avaliações só continuarão a
mostrar o fracasso do sistema.
Penso ser urgente pensar nestas questões, pois não adianta
cobrar melhora nos resultados de aprendizagem se não há um
sistema de contratação de profissionais bem formados, sejam
professores, sejam gestores. Concordo que o problema da má
qualidade de ensino não se resolverá apenas com aumento de
salário dos professores. Mas os profissionais da educação pública
precisam ter seus salários revistos.
Repito: sei das dificuldades de o Estado arcar com uma folha de
pagamento alta como das escolas particulares, mas nosso salário
está vergonhoso e não acredito que o governo do Estado mais
rico da federação não poderia oferecer um pouco mais.
Há também outros problemas que precisam ser enfrentados,
de fato. Acho no mínimo preocupante quando a senhora afirma,
em uma das reportagens (Folha de São Paulo, 25/02/2008),
quando questionada sobre as ´falhas dos governos tucanos´
(Covas, Alckmin), que prefere dizer que os problemas atuais
são estruturais. Não são falhas de um governo que
está aí há anos, não é questão de incompetência. São questões
estruturais. No entanto, quando dizemos que muitos dos problemas
da escola pública são estruturais (salários baixos, lotação, prédios horrorosos, lousas caindo aos pedaços, falta de laboratórios, violência, indisciplina, etc.) ouvimos que isto é reclamação sem fundamento;
que é só saber bem o conteúdo e boas técnicas didático-metodológicas
que tudo se resolveria (isto fica bem claro quando lemos o
´Caderno do Gestor´ que acompanha a nova ´Proposta Curricular´).
Mas quando questionada em uma das reportagens sobre as
condições das escolas, a senhora diz que o governo faz o que pode,
manda verbas, mas à noite a escola é invadida e roubam os fios.
Isto não é contraditório? O governo tem desculpas, não é sua culpa,
é da estrutura e dos vândalos que invadem a escola. Agora, quando
um professor tem que enfrentar uma classe lotada, sem a mínima
estrutura, ele tem que se virar. Não tem desculpas... Em outras
palavras: todas as falhas dos governos passados não são falhas ou
questão de incompetência, são problemas de estrutura. Mas quando
os professores dizem que a estrutura atual do sistema de ensino
contribui muito para o fracasso escolar, o governo diz que isto é
desculpa, que é ´baboseira ideológica´, e que basta ser competente
e saber o conteúdo que tudo se resolverá.
Voltando à tão citada Finlândia, fica claro que lá os professores são competentes, como se afirma, porque bem formados, valorizados e
com condições estruturais bem melhores que as que temos no
Estado de São Paulo. Portanto, falar em qualidade em salas lotadas,
sem condições estruturais satisfatórias e sem professores bem
formados (bem diferente do tão falado sistema finlandês), é falar
para ´inglês ouvir´.
Em suma, uma educação de qualidade reside no tripé salários
dignos, condições de trabalho e compromisso profissional. Só
quando o Estado pagar salários dignos e fornecer condições para
os professores e gestores desenvolverem seu trabalho, poderá
selecionar os melhores e
até mesmo criar formas de excluir aqueles que não tenham
compromisso.
Em tempo, senhora secretária: fiz mestrado e doutorado e não
ganho o salário que estão dizendo por aí que eu ganho. Muitos
de meus colegas me perguntam por que ainda estou na educação
pública ganhando um salário tão baixo que não condiz com a
minha formação. Respondo que escolhi isto por acreditar que
estou exercendo uma profissão chave para um país que deseja
um futuro mais digno; que ainda acredito na educação e que, sim,
tenho um compromisso ideológico com a escola pública. Mas a
seguir sua visão e a visão ´vejiana´ de educação, senhora secretária
, isto deve ser mais uma das minhas ´baboseiras ideológicas´.
Profª Drª Clarete Paranhos da Silva
Supervisora de Ensino – Campinas Oeste

Fax nº 48 – 08/07/2008

MAIS UMA VEZ, S.E.E. DESRESPEITA NEGOCIAÇÃO

Em reunião realizada nesta terça-feira, 08, conforme determinação da audiência de conciliação realizada pelo Tribunal Regional do Trabalho, a APEOESP exigiu da Secretaria da Educação o pagamento integral dos dias parados no período da greve e a garantia da reposição das aulas pelos professores que participaram do movimento.
Durante a reunião, a APEOESP rechaçou a proposta da S.E.E. em relação ao desconto dos dias parados e a não reposição das aulas dadas por eventuais. A presidenta da APEOESP propôs novas formulações para estes itens. Inicialmente, a Secretaria se comprometeu a analisar as propostas do Sindicato e agendar nova reunião para a próxima quinta-feira.

Meia hora após o término da reunião, a Secretaria da Educação divulgou nota aos órgãos de imprensa informando que já descontará os dias de greve nos meses de agosto e setembro. A APEOESP defende o pagamento dos dias, a reposição e o desconto das aulas não repostas.

Diante da ação da S.E., a APEOESP protocolará denúncia no Tribunal Regional do Trabalho e vai conclamar a categoria a continuar a luta em defesa de seus direitos.
Cabe reforçar que os representantes da Secretaria assinaram o compromisso diante do TRT de prosseguir nas negociações sobre os demais pontos da pauta, entre eles o Decreto 53037.

domingo, 6 de julho de 2008

Fax nº 47 – 04/07/2008

Cerca de 20 mil professores aprovam a manutenção do estado de greve

Reunidos em assembléia na Praça da República, em frente ao prédio da

Secretaria da Educação, cerca de 20 mil professores aprovaram a suspensão

da greve e manutenção da mobilização em defesa dos direitos da categoria.

Todos os presentes foram unânimes em considerar o movimento grevista

uma grande demonstração de força e organização da categoria na defesa

de seus direitos e da qualidade da escola pública. A greve obrigou o governo

estadual a comparecer em audiência de negociação instaurada pelo

Tribunal Regional do Trabalho. Além disso, obrigou-o também a apresentar

propostas referentes às reivindicações da categoria. Até a decretação do

movimento, o governo e a secretaria ignoravam a pauta dos professores.

Audiência no Tribunal Regional do Trabalho

A greve dos professores é um direito legítimo garantido pela Constituição

Federal. A legitimidade garantiu a abertura de negociação perante o Tribunal

Regional do Trabalho. A primeira audiência ocorreu nesta sexta-feira, 04,

às 15 horas, com a presença da APEOESP e representantes da

Secretaria da Educação.

Durante a audiência, ficou acertado em termo, assinado por ambas as

partes, que os professores poderiam suspender a greve, desde que o governo

pagasse os dias parados, instituísse um calendário de reposição e abrisse

um processo de negociação sobre a questão salarial, o cumprimento da

data-base, a revogação do Decreto 53037 e da Lei 1041, e os demais

itens da pauta.

Diante desta possibilidade, os professores, em assembléia, aprovaram

a suspensão do movimento e a manutenção do estado de greve. Caso

o governo não cumpra a sua parte, conforme determinação do TRT,

desrespeitando o processo de negociação, os professores voltarão à greve.

Conforme trecho contido no termo de audiência, “(...) a Procuradoria Geral

do Estado se comprometeu a encaminhar ao governador do Estado de São Paulo

a proposta da Apeoesp, até o dia 08/07/2008, devendo comunicar a

entidade até o dia 10/07/2008.

Representantes da Apeoesp afirmaram, ainda, que se o prazo acordado

não for cumprido, a greve será retomada.

Diante do Vice-Presidente Judicial Regimental Desembargador Carlos Francisco

Berardo, que conduziu a audiência, as partes reafirmaram seu compromisso

de prosseguir as negociações sobre os demais temas em pauta.”Além disso,

o descumprimento por parte do governo levará ao acionamento do TRT para

o julgamento do dissídio coletivo.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Endereço:

R. da Consolação, 1272 - Consolação, São Paulo - SP, 01302-001
Link:


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Hoje !!! Audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho 2ª região às 14:30hs

Fax nº 46 – 03/07/2008

Tribunal Regional do Trabalho agenda audiência de conciliação sobre a greve

O Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região agendou audiência de conciliação sobre a greve dos professores para esta sexta-feira, 04 de julho, às 14h30.

A audiência deverá tratar das questões elencadas pela APEOESP em documento protocolado na terça-feira no Ministério Público do Trabalho. O documento relacionou as reivindicações dos professores e o porquê da categoria ter paralisado suas atividades desde 13 de junho.

Além disso, a APEOESP também relacionou entre as reivindicações, o pagamento integral e a reposição dos dias parados referentes ao período da greve.
O TRT também intimou a Secretaria da Educação a comparecer na audiência.

Greve continua!

A iniciativa do Ministério Público do Trabalho em encaminhar o dissídio coletivo dos professores demonstra a importância e a representativa de nosso movimento. Para garantirmos mais conquistas, é imperativo definirmos as próximas ações na assembléia estadual que será realizada amanhã. Portanto, a ampliação do movimento e a participação de todos na assembléia são de suma importância para barrarmos os ataques da Secretaria da Educação.

Nesta quinta-feira, os professores realizam assembléias regionais. Amanhã, todos à assembléia no vão livre do Masp para definição dos rumos do movimento.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

LEITURAS DE VEJA.... Por Gabriel Perissé em 19/2/2008


O professorado e a "baboseira ideológica"


A edição nº 2047 (de 13/2/2008) da revista Veja dedicou um

espaço considerável ao tema da educação nacional. A entrevista

com a secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria

Helena Guimarães de Castro, e os artigos dos economistas

Claudio deMoura Castro e Gustavo Ioschpe compõem uma

espécie de concepção "vejiana" da educação.


A secretária Maria Helena enfatiza que um dos maiores

problemas da deplorável situação da educação em

São Paulo (leia-se, por exemplo, matéria da Folha,

publicada faz um ano) é o insatisfatório

nível profissional dos professores. Os professores

seriam incapazesde dar boas aulas. Quando a jornalista

Monica Weinberg lhe pergunta qual o caminho para

melhorar esse nível, a resposta da secretária é, digamos,

corajosa: "Num mundo ideal, eu fecharia

todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais

conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria

tudo do zero." Essas faculdades apenas perpetuariam

"baboseira ideológica".


Maria Helena é socióloga, mestre em Ciência Política pela Unicamp

e, segundo informações oficiais, está concluindo doutorado na

USP em Ciências Sociais. Sua crítica, portanto, é de quem se

sente apta a julgar como totalmente ineficazes os professores

que ao longo das últimas décadas deram o tom da formação

pedagógica brasileira. Pensemos nas aulas, conferências e

escritos de Dermeval Saviani (Unicamp) e

Antonio Joaquim Severino (USP), para mencionar,

entre tantos outros, dois acadêmicos de prestígio.


O modelo da gincana


Seriam os doutores em pedagogia os principais responsáveis

por fomentar vários mitos que atrapalham a educação pública.

Para Maria Helena, é um mito afirmar que o aumento salarial

dos professores ou um plano de carreira influenciariam a

melhoria do ensino. Na sua opinião, dinheiro

(para falar curto e grosso) não resolve. A menos que esteja

vinculado a uma "política de reconhecimento do mérito".


Por isso, a secretária pretende pagar bônus a todos os que,

numa escola – funcionários, professores e diretor – "levarem"

os alunos a alcançar determinadas metas de bom desempenho.

Os bônus poderão chegar a três salários por ano.


Imagina Maria Helena que os professores, motivados pela

perspectiva de um prêmio pecuniário, insuflados pela súbita

adoção da meritocracia (como se esta existisse no plano

político...), realizarão o milagre de transformar a realidade

educacional. Essametodologia do burro atrás da cenoura

sussurra aos ouvidos do professor:

"Quer mais dinheiro? Então trabalhe mais!" Não leva

em conta os problemas reais que tornam a boa vontade e

o esforço do docente, por maiores que sejam, fonte de

mais estresse. Contudo, e vai aqui simplória sugestão

— uma vez que os bônus estarão

condicionados ao desempenho dos alunos, por que

não prometer também aos estudantes uma

participação? Uns 5% poderiam

incentivá-los a colaborar com essa escola de resultados!

A idéia simplista de que a repetência, o abandono escolar

(vale a pena ler matéria do Correio Braziliense), o

desinteresse crônico, a indisciplina, o fraco rendimento etc.

devem-se sobretudo à falta de bons "dadores de aula"

demonstra que o estilo "PSDB"

de governar não tem condições de analisar a realidade

educacional e oferecer soluções melhores do que o

modelo da gincana. Quem correr mais, quem tiver sorte

e/ou for mais criativo, atinge os

objetivos, ganha pontos e arrebata o prêmio.


Formação humanística


Não poucos alunos enfrentam problemas fora da

escola (famílias desestruturadas, ambiente social adverso,

falta de valores, de referências, carências alimentares e de

saúde) e esses problemas geram novas e complexas

dificuldades na sala de aula,

associadas a outros mil problemas que independem

de uma boa

aula. Aliás, impedem a boa aula que o bom professor

porventura

preparou. Como poderá a cenoura bonificadora fazer

professores e diretores deterem o tráfico de drogas

que invade as escolas,

consertarem móveis quebrados, reformarem os banheiros,

transformarem salas sem ventilação em paraísos didáticos,

evitarem a violência entre os alunos?

Há professores despreparados? Há. Escolheram o magistério

por idealismo (acreditaram na pedagogia do amor à la

Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação no tempo de

Geraldo Alckmin) ou por falta de alternativas. São

sobreviventes de um ensino básico sofrível, de um ensino

médio deficiente, falta-lhes até mesmo estrutura física e

emocional para dar conta da sobrecarga de classes, expediente

necessário na luta por somar salários.

Há professores que faltam muito? Sim. Os que faltam,

não raro, fogem das condições de trabalho:

indisciplina incontrolável,

humilhações e arbitrariedades que usurpam sua

autonomia,falta de recursos materiais, falta de

tempo ede saúde por excessode atividades.

Lembrando que a maioria feminina

entre os docentes

põe em jogo outra questão para além da sala de aula.

São as mulheres que, professoras com 30 a 40 horas/aula

por semana, estão sobrecarregadas também pelas

tarefas domésticas.


E não só isso. Educar, ensinar, é tão ou mais

exigente do queoutras exigentes profissões.

Requer a prática da comunicação,

o dom da invenção, a capacidade de avaliar (intuitiva e

objetivamente) o comportamento humano (de crianças e

adolescentes!), forte autonomia profissional, virtudes que só se

desenvolvem com formação humanística prévia

e auto-aprendizagem

contínua. Estas, por sua vez, implicam leitura, reflexão, acesso

à cultura no sentido amplo, apoio profissional (bons cursos,

boas oficinas, orientação didática, ajuda psicológica) e

tranqüilidade econômica.


Salário não é tudo, mas...


Como uma espécie de comprovação das opiniões da secretária,

Claudio de Moura Castro escreve na mesma edição da Veja

um artigo igualmente curto e grosso: "Salário de professor".

Baseado em que, segundo as sempre infalíveis estatísticas,

os docentes brasileiros possuem remuneração compatível com

a realidade empregatícia nacional, o articulista conclui que os

sistemas públicos se tornariam mais eficazes se "conseguissem c

riar um ambiente mais positivo e estimulante". O exemplo estaria

nas escolas privadas, em que os professores, com "níveis salariais

parecidos", estão contentes.

O mais estimulante seria então a tal cenoura tentadora do

bônus? Moura Castro não afirma nem nega.

Menciona outrotema: o da gestão.

"Como a escola tem a cara do diretor", dependeria

então desse gerente do ensino, digamos assim,

valorizar os professores,

motivá-los, com bônus ou sem bônus. Mas se,

na prática, os diretores

são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou,

medianteconcurso, estão politicamente compromissados

de modo mais oumenos velado com estes mesmos

governos, a escola desse diretordificilmente terá a cara

dos professores nem dos alunos que lá estão.

A propósito, recomendo que economistas e sociólogos

que se autoproclamam especialistas em educação

leiam outro uspiano(antes de se fecharem as faculdades

de Educação): o pesquisadorVitor Henrique Paro,

sobre a eleição de diretores em escola pública

como experiência democrática de grande valor.

Nenhuma palavra da secretária e do articulista

sobre a iniciativado governo federal de estipular

o salário mínimo dos professores

em 850 reais, o que significará um aumento de quase 50%.

Não concordam eles com o ministro Fernando Haddad?

Salário,concordo eu com eles, não é tudo, mas,

sem cuidar dos salários,

tornando-os, inclusive, atrativos para melhores profissionais,

o governo poderá jogar no sistema o dinheiro que bem quiser

(contratar consultorias, investir em computadores, instalar

câmeras para monitorar os alunos etc.), mas os

problemas continuarãoa se perpetuar.


Finlândia, o paradigma


O terceiro capítulo educacional dessa edição da Veja é assinado

porGustavo Ioschpe: "Pelo direito à ruindade". Gustavo

critica o MECpela iniciativa, que considera "antiliberal",

de averiguar melhor aqualidade do ensino superior

(em particular as faculdades de direitoe pedagogia),

sob pena de fazer reduzir a oferta de vagas ou mesmo

fechar o curso. Ora, não dissera a secretária de Educação

que, sefosse possível, fecharia todas as faculdades de

pedagogia, mesmoas que têm a melhor avaliação?

Não são essas faculdades que

prejudicam a escola, transmitindo baboseiras ideológicas em

lugar de ensinar os professores a serem professores?

A contradição é só aparente. No momento em que as faculdades

de pedagogia estivessem todas fechadas, sobretudo as públicas,

mais críticas, menos dóceis ao mando, tudo recomeçaria do zero.

Ou ficaria tudo na estaca zero. Quem quisesse abrir fábricas

de diplomas pedagógicos teria amplo direito de fazê-lo, sem

maiores impedimentos ou muitas cobranças, como em outros

tempos, e os professores formados nessas faculdades teriam

o dever de superar sua posterior "ruindade", rezando pela

cartilha da "pedagogia do bônus".

Estaria assim o mercado controlando as coisas ao seu modo:

o famoso "salve-se quem puder".

Mas o espírito "vejiano" continua a dar lições sobre a arte de

lecionar... Na edição desta semana (nº 2048, de 20/2/2008),

a revista Veja publica a matéria "A melhor escola do mundo".

Thomas Favoro, diretamente da Finlândia (país com

características idênticas às do Brasil), revela o que podemos

aprender em termos educacionais.


No quesito "salário", os professores finlandeses, infinitamente

melhores do que nós, recebem cerca de 2.500 dólares/mês;

nós embolsamos algo em torno de mil dólares/mês. Esclarece

a matéria, em letras minúsculas, que se trata de professores

do ensino fundamental com 15 anos de experiência.

Segundo o texto, e deve ser verdade, 100% dos professores

finlandeses possuem o mestrado. Já no Brasil, somente 2%.

Mas se depender da gestão do governador José Serra, essa

disparidade continuará. Em meados do mês de janeiro de

2008, suspendeu-se o programa "Bolsa Mestrado" para os

professores estaduais. O intuito deve ser viabilizar o tal

bônus que aí vem!